Os habitantes de Kufa convidaram o Imam Hussein (a.s.). Escreveram cartas, assumiram compromissos e juraram fidelidade a Muslim ibn Aqil. Porém, quando Ubayd Allah ibn Ziyad passou a governar Kufa por meio de ameaças e promessas, essas mesmas pessoas abandonaram Muslim, impediram a chegada da caravana do Imam Hussein (a.s.) e permaneceram em silêncio diante da tragédia de Karbala.
O resultado desse silêncio foi Ashura: o martírio do Imam que havia se levantado para reformar a comunidade de seu avô, juntamente com seus filhos, irmãos, sobrinhos e companheiros fiéis.
Anos depois, consumidos pelo remorso, esses mesmos habitantes de Kufa organizaram o movimento dos Tawwabun. Choraram junto ao túmulo do Imam Hussein (a.s.) e, sob a liderança de Sulayman ibn Surad al-Khuza'i, partiram para combater o exército omíada. Lutaram e morreram.
Entretanto, seu arrependimento e seu sacrifício já não puderam defender o Imam Hussein (a.s.), reconstruir suas tendas incendiadas nem reparar a garganta degolada de Ali al-Asghar (a.s.). Na realidade, os Tawwabun purificaram a si próprios, mas não puderam desfazer a injustiça já consumada. A história registra que eles não permaneceram firmes no momento em que isso era necessário. Seu arrependimento, embora sincero e digno de respeito, já não podia beneficiar aquele que havia sido oprimido.
Agora imaginemos uma situação hipotética, mas construída segundo o mesmo modelo de Kufa: um líder sábio e experiente que, durante mais de três décadas, trabalhou como um pai dedicado para preservar a dignidade e a força de seu país em meio a crises políticas e econômicas.
Assim como Ibn Ziyad dispersou os companheiros de Muslim por meio de ameaças e recompensas, também hoje campanhas midiáticas hostis e correntes de desinformação podem difundir narrativas falsas, semeando desconfiança entre parte da população. Espalham rumores, constroem acusações e apresentam uma imagem distorcida do líder, levando muitos ao silêncio ou mesmo às críticas.
Então chega o dia de sua morte. A notícia comove toda a nação. Multiplicam-se as lágrimas e as manifestações de arrependimento. As pessoas descobrem aspectos desconhecidos de sua vida simples e de seus sacrifícios e passam a dizer: "Não sabíamos o quanto ele era injustiçado"; "Não imaginávamos que tantas informações fossem falsas."
Essas manifestações lembram o choro dos Tawwabun diante do túmulo do Imam Hussein (a.s.). Contudo, o problema permanece o mesmo: as lágrimas surgem quando já é tarde demais. O mártir já não pode ouvi-las. Esse arrependimento já não consola sua solidão nem alivia o sofrimento que suportou durante sua vida.
Em ambas as situações existe uma mesma verdade dolorosa: o apoio deve ser oferecido enquanto o líder está presente, e não apenas depois de sua ausência.
O Imam Hussein (a.s.) precisava de companheiros na véspera de Ashura, não de lamentos depois de seu martírio. Da mesma forma, um líder sábio necessita de apoio, discernimento e firmeza durante os momentos em que enfrenta o isolamento e as campanhas de difamação, e não apenas de homenagens após sua morte.
Os meios de comunicação tornaram-se a espada dos tempos modernos. Ibn Ziyad utilizou a espada e o dinheiro para dispersar os seguidores de Muslim. Hoje, a manipulação da informação pode produzir efeito semelhante ao destruir a confiança e semear dúvidas sobre a liderança.
O arrependimento tardio, muitas vezes, serve mais para aliviar a consciência de quem falhou do que para reparar a injustiça sofrida pela vítima. Os Tawwabun derramaram o próprio sangue e aliviaram o peso de sua culpa, mas não puderam trazer de volta o seu Imam. As lágrimas derramadas após o martírio possuem a mesma característica: confortam os sobreviventes, mas já não podem beneficiar aquele que partiu.
A comparação entre os Tawwabun de Kufa e uma comunidade que apenas reconhece o valor de seu líder após sua morte constitui um sério alerta: reconhecer o valor da liderança enquanto ela ainda está presente.
Não devemos permitir que narrativas falsas criem distância entre um povo e seu líder. Se um dia descobrirmos que fomos enganados, mas esse reconhecimento ocorrer somente após sua partida, nosso arrependimento será semelhante ao dos Tawwabun: digno de respeito, porém incapaz de beneficiar aquele que precisava de nosso apoio quando ainda estava entre nós.
A história somente se repete quando deixamos deela.aender com ela.
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